Cacau – Uma nova realidade no sul da Bahia

Os coronéis do cacau, celebrizados em romances de Jorge Amado e que deram fama mundial ao sul da Bahia, fazem parte do passado. Atualmente, 80% das 28 mil propriedades rurais na região são de pequenos produtores e agricultores familiares.

Os coronéis do cacau, celebrizados em romances de Jorge Amado e que deram fama mundial ao sul da Bahia, fazem parte do passado. Atualmente, 80% das 28 mil propriedades rurais na região são de pequenos produtores e agricultores familiares.

A Fazenda Leolinda, em Uruçuca, e o Assentamento Terra Vista, em Arataca, simbolizam a nova realidade do sul da Bahia, que durante décadas produziu amêndoas de cacau apenas para commodities, com baixo valor agregado,
vendendo para as grandes indústrias processadoras.

Com a introdução de tecnologias modernas e práticas de manejo inovadoras, aliadas à verticalização da cadeia produtiva, grandes, médios e pequenos produtores e agricultores familiares estão produzindo cacau de qualidade, utilizado na fabricação de chocolates finos, com certificado de origem e contribuindo para a conservação da Mata Atlântica, por meio da sustentabilidade no cultivo e colheita dos frutos.

Na Leolinda, de 700 hectares, com 340 hectares de cacau cabruca e 190 de mata nativa conservada, João Tavares, da terceira geração de produtores rurais, colhe cerca de 12 mil arrobas de cacau premium ano, o que garante um valor de mercado até 100% superior ao cacau comum. Toda a produção é destinada ao mercado externo. Os cuidados começam no cultivo, com plantas selecionadas, e terminam na colheita. Um processo de fermentação e secagem garante uma amêndoa de alta qualidade, com aromas e sabores diferenciados, premiada duas vezes no Salão do Chocolate de Paris como o melhor cacau do mundo e cacau de excelência. O Chocolate Q, produzido com amêndoas da Leolinda, e vendido até a R$ 500,00 o quilo, foi a primeira marca brasileira premiada no Chocolat International Awards, nos Estados Unidos.

“É preciso agregar valor ao cacau, e isso se dá através de produtos de qualidade, conquistando mercados diferenciados. nesse processo o apoio do governo do Estado é fundamental na difusão de tecnologia, assistência técnica, obtenção de crédito e apoio à agroindústria”, afirma Tavares. “o cacau, com toda a sua história econômica e sociocultural, e a garantia da preservação da natureza continuarão sendo importantes no desenvolvimento do sul da Bahia”, afirma Tavares.

O assentamento Terra Vista, criado em 1994, foi uma das primeiras áreas de reforma agrária no sul da Bahia, surgido no auge da crise provocada pela vassoura-de-bruxa, doença que dizimou 80% da produção de cacau naquela região. hoje, é um exemplo de que um projeto de agricultura familiar com foco na sustentabilidade e na educação pode produzir excelentes resultados, conciliando conservação ambiental e qualidade de vida.
No Terra Vista, que possui 910 hectares, dos quais, 300 de cacau e 313 de Mata Atlântica, 55 famílias produzem cerca de 5 mil arrobas/ano de cacau 100% orgânico, cerca de 70 arrobas por hectare. Aliada ao cultivo de frutas, verduras e hortaliças, a cultura garante uma renda média de 2,5 salários mínimos por família.

Da colheita, 10% são destinados à produção do Chocolate Terra Vista, um produto premium que já foi apresentado no Salão do Chocolate de Paris. A educação é uma prioridade no assentamento. O Centro Integrado Florestan Fernandes oferece o Ensino Fundamental I e II, que atende alunos de 11 municípios; e o Centro de Educação Profissional Milton Santos oferece os cursos profissionalizantes de Agroecologia, Meio Ambiente, Agroindústria, Agroextrativismo, Informática, Zootecnia e Segurança do Trabalho. Além desses, é oferecido também um curso de nível superior em Agronomia, com especialização em Agroecologia, com universitários oriundos de assentamentos de todas as regiões da Bahia.

“A produção de cacau e a conservação da natureza são práticas indissociáveis nesse novo modelo de desenvolvimento”, afirma Joelson Ferreira, coordenador do Terra Vista. “o cuidado com a terra, a melhoria das amêndoas, a produção orgânica e um modelo educacional focado nas necessidades do setor rural estão contribuindo para que os assentados tenham uma vida digna, sem necessidade de migrar para as incertezas dos centros urbanos”, diz.

Difusão de tecnologias
A comissão Executiva da lavoura cacaueira (CEPLAC), por intermédio do centro de pesquisas do cacau (CEPEC), que possui um dos maiores bancos de germoplasma do mundo, tem contribuído para a produção de plantas de alta produtividade e mais resistentes a doenças. um dos exemplos práticos desse trabalho desse trabalho é o projeto de manejo intensivo para Elevação da produção, uma área experimental de 5 hectares, na sede regional da instituição em ilhéus, onde plantas com cerca de 18 meses produzem 30 frutos por árvore/safra, contra uma média regional de 6 frutos por árvore/safra

De acordo com o diretor do centro de pesquisas do cacau, Raul Valle, “isso significa um salto de 300 quilos por mil árvores/ano para 1.500 quilos por mil árvores/ano, com grande impacto na economia regional”. A área experimental, cultivada por meio de sistema agroflorestal (SaF), 16 clones de cacaueiros selecionados e a nova tecnologia já estão sendo repassados aos agricultores do sul baiano, para a produção em larga escala.

Além do centro de pesquisas do cacau, foi criado o centro de inovação do cacau, que funciona na universidade Estadual de Santa Cruz (uesc) e faz parte do parque científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul), uma parceria entre o Governo da Bahia, por meio das secretarias estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) e Desenvolvimento Econômico (SDE), Ceplac, Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), IFBA, IFBaiano e Uesc.

O CIC tem foco na criação e inovação da cadeia produtiva do cacau e chocolate e realiza serviços como análises físico-químicas e análise sensorial, com ênfase na melhora da produtividade, qualidade e rastreabilidade das amêndoas, viabilizando o fortalecimento da inserção do cacau baiano nos circuitos produtores de chocolates finos e de origem. O centro oferece equipamentos com tecnologia de última geração e vai instalar uma planta industrial que permitirá aos produtores a fabricação de marcas regionais de chocolates finos.

“Esse trabalho permite o mapeamento de agricultores e a abertura de novos mercados. Estamos atuando no sentido de que o Brasil seja reconhecido como um país que produz cacau de qualidade, especialmente na Bahia, com valorização dos ativos sociais e ambientais, valorizando o chamado cacau com certificado de origem”, afirma o diretor do Centro de Inovação do Cacau, Cristiano Vilela.

Biofábrica de Cacau
A Biofábrica de Cacau, localizada em Ilhéus, primeira unidade no mundo destinada à produção em escala industrial de clones de cacaueiros, é um importante instrumento do Governo da Bahia para que os produtores do sul da Bahia melhorem a qualidade e a produtividade do cacau, por meio da distribuição de mudas selecionadas pela Ceplac.
São 40 mil metros quadrados de extensão, com capacidade para armazenar 4,8 milhões de plantas, em 20 viveiros, e onde está instalado um dos maiores laboratórios de micropropagação do país, além de um banco de dados e conhecimentos em protocolos técnicos e científicos certificados por órgãos renomados. A partir deste ano, também estão sendo desenvolvidos experimentos de melhoramento genético e certificação.

Até julho foram entregues 3 milhões e 800 mil mudas, e até o final do ano serão um total de 6 milhões, sendo 3 milhões de mudas de cacau de alta produtividade. A Biofábrica também produz mudas de frutas como banana e goiaba, além de mandioca e plantas nativas, contribuindo para a diversificação da produção. A meta é chegar a 17 milhões de mudas/ano.

“Estamos produzindo material de alto valor agronômico agregado, com certificação do Ministério da Agricultura, com qualidade e acessibilidade aos produtores”, destaca Lanns Almeida, diretor da Biofábrica. “isso tem um impacto positivo na base produtiva, especialmente na agricultura familiar e também na conservação dos ativos florestais, já que atuamos na produção de mudas para restauração da mata nativa”, complementa.
Bahia Produtiva

Até julho deste ano, governo do Estado, por meio do programa Bahia produtiva, investiu R$ 13 milhões em 31 projetos de apoio à agricultura familiar no sul da Bahia. Os projetos incentivam a produção de cacau e chocolate, frutas, compotas, horticultura e agroindústria, com apoio técnico, apoio à comercialização e inserção em ações como o programa de aquisição de alimentos, contribuindo para a geração de emprego e renda no setor rural.
Escrito por Daniel Thame / GOV-BA

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